Desenvolvimento Pessoal, Psicologia

Autocuidado – A coragem de desligar o interruptor

Autocuidado é uma palavra que se tornou muito familiar, sendo que a encontramos nas redes sociais, nas revistas, nos podcasts, nas conversas entre amigos. É fácil encontrar informação sobre massagens, alimentação saudável, exercício físico, rotinas matinais, banhos relaxantes ou momentos de lazer. É um facto que todas estas opções são importantes no leque das ações de autocuidado. Contudo, será que é aí que ele começa?

Ao longo dos anos de prática clínica, tenho percebido que existe um paradoxo curioso. Nunca se falou tanto de autocuidado e, simultaneamente, nunca encontrei tantas pessoas profundamente afastadas de si próprias. Vivemos numa sociedade que nos ensinou a acelerar. Aprendemos a viver num tempo sem tempo. Os dias transformaram-se numa sucessão de tarefas, responsabilidades, notificações, decisões e compromissos que se entrelaçam numa velocidade quase impossível de acompanhar. Quando finalmente chegamos ao final do dia, resta-nos, muitas vezes, apenas a exaustão. A exaustão física e mental tem uma característica associada, torna-nos “surdos”. Deixamos de escutar o corpo quando nos pede descanso. Ignoramos as emoções porque “agora não há tempo”. Silenciamos a nossa voz interior porque há sempre algo mais urgente para resolver. Esta questão torna-se ainda mais problemática porque aquilo que não escutamos não desaparece, apenas encontra outras formas de se manifestar (não segue pela “autoestrada” encontra alternativas secundárias).

A psicologia e a neurociência mostram-nos que o nosso organismo não foi concebido para permanecer continuamente em estado de alerta, pois quando vivemos durante demasiado tempo sob níveis elevados de stress, o cérebro privilegia os circuitos da sobrevivência. A atenção torna-se mais estreita, a flexibilidade diminui, a criatividade reduz-se e o corpo permanece preparado para responder a ameaças, mesmo quando elas já não existem. É precisamente aqui que o verdadeiro autocuidado ganha significado. Autocuidado não é apenas aquilo que fazemos, mas é também a forma como nos escutamos. Autocuidado é permitir a curiosidade que nos leve a notar, observar e escutar as nossas genuínas necessidades internas. Talvez a resposta seja algumas vezes dormir, pedir ajuda, dizer “não”, chorar… Talvez seja, simplesmente, permanecer alguns minutos em silêncio sem sentir necessidade de preencher todos os espaços com produtividade. Quando desligamos o interruptor da produtividade constante, surgem perguntas que durante muito tempo conseguimos manter em silêncio, surgem emoções adiadas, surgem dúvidas, surgem medos. Para muitos de nós parar pode assustar, pois pode significar perder o controlo. É como se o comboio onde seguimos viajasse permanentemente em modo TGV e em que abrandar parece perigoso ou fraqueza. Parece significar que já não somos suficientemente competentes, suficientemente fortes ou capazes. A verdade é que muitas vezes estamos a alimentar crenças antigas que confundem valor pessoal com desempenho. Assim, o desafio será conseguirmos retirar tarefas da lista, descansar sem culpa, ter coragem para não corresponder sempre a tudo e a todos. Não é egoísmo cuidar de nós é amor-próprio, é assertividade em valorizar.

Encontrar tempo para nós pode significar permitirmo-nos viver com conteúdo, proximidade e presença

Susana Amaral

CP8422

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