Desenvolvimento Pessoal, Psicologia

Quando o outro ocupa demasiado espaço

Há pessoas que chegam e parecem ocupar muito espaço. Não nos reportamos necessariamente ao espaço físico, mas ao espaço mais subtil que se constrói nas relações. O espaço da palavra, da presença, da atenção, das decisões, das emoções… São aquelas pessoas que sentimos intensamente, que se fazem notar, que parecem preencher uma sala, uma conversa ou até uma relação inteira.

Perante alguém assim, podemos sentir-nos invadidos, podemos ter a sensação de que a nossa liberdade fica limitada, de que há pouco espaço para a nossa voz ou simplesmente para sermos e estarmos ao nosso ritmo. Essa sensação carece de atenção e análise, para tal, pode ajudar o questionamento sobre a mesma: quando observo que alguém ocupa demasiado “espaço”, o que diz essa mensagem? Nem sempre existe uma resposta simples, pode dizer algo sobre nós, sobre a nossa história relacional, sobre a forma como aprendemos a estabelecer limites, sobre a dificuldade que, eventualmente, sentimos em afirmar necessidades ou em dizer “não”. Talvez tenhamos aprendido, em algum momento da nossa vida, que para preservar uma relação era preferível ceder, acomodar, evitar o confronto ou ocupar pouco espaço. Assim, aquilo que sentimos perante o outro também pode funcionar como uma espécie de “lupa” sobre o nosso mundo interno, tal como manifesta, igualmente, algo sobre quem temos à nossa frente. Por vezes, uma presença muito intensa pode ter sido construída precisamente a partir da experiência contrária, o medo de não ter espaço (a limitação sentida em algum momento). Quem precisou, durante muito tempo, de falar mais alto para ser ouvido pode ter aprendido a fazer-se notar. Quem sentiu que as suas necessidades eram facilmente ignoradas pode ter desenvolvido formas muito marcadas de afirmar a sua presença. Quem experimentou a sensação de invisibilidade pode procurar, já em adulto, garantir continuamente que não volta a “desaparecer” no meio dos outros.

O que interpretamos como “ocupar demasiado espaço” pode, em alguns casos, ter começado como uma estratégia adaptativa. Esta estratégia pode dizer: Preciso de me fazer presente para ter a certeza de que existo para o outro. Compreender não significa justificar todos os comportamentos, nem apagar o impacto que eles têm sobre nós, pode exigir reconhecer que determinada forma de estar nos invade. Podemos ter empatia pelas necessidades do outro sem abandonar as nossas. Podemos perceber de onde vem um comportamento e ainda assim precisarmos de delimitar o que é possível para nós. Talvez uma das aprendizagens mais exigentes das relações adultas seja, precisamente, integrar que o espaço não precisa de ser conquistado retirando-o ao outro.

Há relações em que aprender a dizer “este é o teu espaço, este é o meu e aqui podemos encontrar-nos” pode ser uma das formas mais profundas de respeito.

Susana Amaral

CP8422

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